Filmes do Brasil Secreto

Rodrigo Cássio Oliveira é um ótimo pesquisador, com excelente formação, e foi um prazer participar de sua banca de mestrado, que deu origem a este livro, um ensaio crítico que articula a análise fílmica digna do nome com um amplo debate sobre as relações entre arte e sociedade, trazendo significativa contribuição aos estudos do cinema brasileiro contemporâneo (pós-1994).

Seu recorte privilegia o confronto do cinema com a conjuntura social e política da virada de século, destacando o momento em que os dois filmes escolhidos para conduzir o debate, Cronicamente inviável (1999), de Sérgio Bianchi, e O Príncipe, de Ugo Giorgetti (2002), expõem seu diagnóstico severo da situação do país, compondo imagens de corrosão social que, em diferentes estilos, lhes conferem uma condição singular no contexto da produção recente.

Na leitura de imagem e som, Rodrigo Cássio mergulha no detalhe, recompõe o movimento de cada filme e, a partir da análise da mise-en-scène, da estrutura dramática e da plástica das imagens, evidencia como estas obras, distintas em sua linguagem, estilo autoral, tonalidade e ponto de vista, se afinam no horizonte maior de uma visada crítica da experiência social que focalizam. Seguindo o seu movimento interpretativo, compreendemos a forma como Giorgetti e Bianchi produzem, em conjunto e cada qual a seu modo, a imagem cáustica de uma conjuntura a partir da montagem de situações que podem variar do embaraço ao vexame, da linguagem cifrada da decepção e do desencontro à retórica insolente do preconceito e do cinismo. 

O essencial, em sua leitura, é demonstrar a forma como os filmes em pauta se afinam em seus percursos ao dissecar micro-relações de poder. Num caso, relações concentradas em São Paulo e em sua feição urbana catastrófica como expressão da conjuntura cujos sintomas deslizam numa sucessão que deprime pela conjunção de passividade, polidez e violência simbólica. No outro, relações com que nos deparamos num périplo feito pelo cineasta, cobrindo o país de norte a sul para compor um mosaico de comportamentos grotescos e de vozes apegadas a clichês sobre a miséria brasileira, numa montagem que golpeia o espectador pela justaposição convulsiva de manipulações e de oportunismos escancarados.

No debate montado pelo autor sobre o contemporâneo, O Príncipe e Cronicamente partilham um embate espinhoso com uma sociabilidade esquiva, marcada pelo avanço da mercantilização da cultura que reduz à categoria do “evento” e do “espetáculo”, envolvendo um segmento profissional à procura de status num mundo administrado, versão nacional de um capitalismo tardio que exibe aqui seu cotidiano emparedado entre violência, atomização e ressentimento.

Estamos diante de exemplos em que os cineastas fazem sua reflexão a partir de um beco sem saída que este livro discute sem ilusões quanto à efetividade do cinema na tarefa de engajar o espectador, dada a condição estrutural de uma arte política que vive o fantasma de sua diluição dentro de uma ordem sócio-econômico-política que inscreve, em sua própria lógica, um movimento de neutralização da crítica. Afinal, a própria ordem já explicita seus mecanismos (não haveria o que desvelar) produzindo uma ordem discursiva dominada pelo que Peter Sloterdijk chama de “razão cínica”, que, entre outros efeitos, implica na naturalização das relações sociais em fórmulas do tipo “as coisas são o que são, iníquas e inelutáveis”, seguidas do comentário protocolar, desengajado, que justifica o individualismo e o usufruto da vantagem.

Para melhor situar a condição do intelectual e do artista neste mundo administrado, a análise de Rodrigo Cássio se vale de contrapontos, tal como o momento pós-1964 do cinema moderno brasileiro, em que a figura do desencanto ganhou expressão em filmes protagonizados por intelectuais às voltas com a crise de projetos e a questão da impotência política, condição vivida num contexto bem distinto daquele desenhado nos filmes de 1999-2002. Tal cotejo tem posição central no leque de referências que ajuda a configurar melhor a particularidade do desafio enfrentado hoje pela crítica, seja a exposta nos filmes ou nos ensaios.

De tal particularidade, o autor ressalta um aspecto que ele observa na configuração do próprio objeto da reflexão que mobiliza os filmes e, por extensão, sua leitura crítica. Para tanto, parte da fala de um personagem de O Príncipe que se refere à presença difusa de um Brasil secreto, escuro, de difícil acesso que, ao mesmo tempo, estaria em toda parte. Esta é uma forma de Rodrigo Cássio se referir a uma problemática na qual se sabe envolvido, questão que ele próprio resume na conclusão do livro: “A difícil tarefa de apreender a ideologia, em sua atualidade, continua a ser equivalente ao propósito de encontrar os meios e a forma apropriada para a sua crítica.” 
 

 

Ismail Xavier é crítico de cinema e professor da Universidade de São Paulo, autor, entre outros, de Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da FomeAlegorias do Subdesenvolvimento e O Olhar e a Cena.