Sobre fake news e controle pelo Estado

 

A vereadora Marielle Franco foi alvo de fake news depois de morta em atentado no Rio de Janeiro

 

A importância que as fake news passaram a ter na comunicação é realmente um grande tema. No calor das calúnias sobre Marielle Franco compartilhadas a rodo nos últimos dias, surgem defensores de que o Estado deveria exercer algum tipo de controle sobre elas. Seja fiscalizando as redes e mensageiros digitais para obrigá-los a excluir os conteúdos falsos, seja intervindo diretamente para que eles não seguissem adiante, o Estado assumiria o papel de guardião da verdade em uma época na qual somos constantemente expostos a mentiras.

Sou inteiramente contrário a qualquer regulamentação desse tipo. Além de não existirem condições técnicas para que ela fosse implantada, é muito temerário delegar ao Estado um poder de controle sobre as verdades e mentiras que os indivíduos decidem compartilhar livremente.

Quando o debate sobre fake news ganha contornos como esses, certo discurso crítico sobre a mídia, ainda muito utilizado, precisa ter entrado em crise. Antes de existirem as redes, jornais e emissoras de televisão eram constantemente questionados pelo trabalho de seleção e apuração do seu conteúdo, e não raro esse trabalho era visto como puramente ideológico. Em algum grau, o público seria uma entidade neutra em que a mídia consegue plantar opiniões políticas e visões de mundo.

A explosão das fake news joga por terra essa conversa, porque demonstra que os usuários de mídia tem uma predisposição muito rígida a filtrar os conteúdos que lhe chegam. A notícias não servem para que eles construam uma imagem do mundo, mas sim para que confirmem a imagem do mundo que eles já têm. O grau de neutralidade de quem participa da comunicação em rede não é apenas muito baixo. Ele tende a zero.

Outro ponto interessante de mudança diz respeito ao que se chamava, até ontem, de “ética da comunicação”. Essa é uma disciplina pensada desde sempre do ponto de vista dos emissores da era analógica. Como devem agir os profissionais do meio? O que é certo ou errado fazer quando você tem a responsabilidade de informar o grande público? As fake news nos obrigam a envolver todos os usuários das redes nessas perguntas, porque agora eles também são responsáveis pelo que entra no fluxo de notícias. Não existe responsabilidade sem deveres. Então não há nenhum motivo para não falarmos seriamente sobre os deveres dos usuários das redes.

Em um contexto no qual muita gente ainda fala a sério sobre a “manipulação da mídia”, não surpreende que o Estado seja visto como um possível censor das incômodas fake news. Mas essa é apenas uma resposta fácil, ingênua e perigosa às transformações da comunicação na era digital.