Cinema brasileiro ontem e hoje

 
 

A submissão da experiência estética a uma agenda política acompanhou o nivelamento do pensamento sobre a arte ao baixo nível do discurso dos militantes. E não digo isso em tom de revelação, como se estivesse apontando algo que não está muito visível. Pelo contrário, os próprios artistas e críticos alinhados ao justiçamento identitário já dizem com todas as palavras, e incrível orgulho, que "não se trata de cinema", que eles não são movidos pelo que uma obra tem a oferecer como objeto artístico.

Qualquer filme tomado como alvo destes censores ideológicos poderia muito bem ser alguma coisa não estética, ou alguma coisa não artística. O filme poderia não ser um filme, já que seu valor é medido pelo que está dito sobre, pelo que está representado ali. Já ouvi várias vezes (e mais ainda nos últimos anos) que um filme X ou Y não deveria existir porque criou uma representação ofensiva, opressora, irresponsável do mundo ou de pessoas.

No campo da esquerda, a imposição de padrões morais para a representação não nasceu com o identitarismo, mas é com ele que essa imposição abandonou o interesse pela forma artística. Quando Glauber Rocha escreveu o manifesto Eztetyka da Fome, enfatizou que a vinculação entre os cineastas do Cinema Novo se dava por razões políticas, em torno de um projeto de mudança da representação do povo nos filmes brasileiros. Esse projeto, porém, era sustentado por princípios formais, e buscava lastro na assimilação dos filmes clássicos e das tendências europeias. O cinema precisava ser novo, para haver uma nova representação.

Com os justiceiros identitários é diferente. O critério de julgamento de um filme já não tem a ver com a forma, e a experiência do cinema passa a ser essencialmente moral. Os filmes já não são bons ou ruins, mas certos ou errados, corretos ou incorretos. Hoje é possível encontrar quem defenda, sem ficar corado por isso, que a sensibilidade moral do público (e mais: de um certo público) deve ser mais importante que a liberdade dos artistas. "Repudiamos que filmes como estes estejam presentes em nossas telas", dizem, como disseram agora no Recifest, sobre o filme do cineasta pernambucano Lula Magalhães.

Quase sempre, pontos de vista autoritários como esses são defendidos por jovens que mal saíram dos 20 anos. A ruptura dessa geração com aquela que, nos anos 1960 e 1970, defendia a liberdade em uma ditadura (e inclusive a liberdade sexual e de gênero), é completa. Rogério Sganzerla não poderia fazer, hoje, um filme livre e belo como A Mulher de Todos. O prejuízo que isso causa na qualidade do nosso cinema ainda está por ser entendido.