Música como ritual

 

Gravação do clipe Vai, Malandra, de Anitta, que gerou polêmica nas redes sociais

 

Li de um crítico de música que a funkeira Anitta precisa diminuir a performance corporal e se concentrar na qualidade musical das suas composições para se consolidar como artista no longo prazo (ela vai envelhecer, afinal). O mesmo crítico considera que a música sertaneja de hoje é pior que a de algum tempo atrás, porque desapareceram de vez os traços autorais das canções. Qualquer dupla sertaneja atual pode cantar qualquer música atual, que não conseguimos saber facilmente quem são os autores. Tudo soa praticamente igual.

A meu ver, as duas leituras levantam falsas questões. A performance corporal é essencial para a música da Anitta, assim como certo apagamento da autoria é uma realização natural do gênero sertanejo, que sempre foi o mais simples e padronizado da indústria cultural brasileira. Nos dois casos, a música de massa mostra ser uma experiência sensitiva, não necessariamente artística (embora estética), que não depende principalmente dos sons e das melodias para se constituir.

Eu não quero dizer que a música de massa pode abrir mão dos sons e melodias, mas sim que os componentes especificamente musicais são apenas uma parte daquilo que importa, e essa parte nem sempre será a mais relevante. Como avaliar o desempenho dos músicos de sucesso sem levar isso em conta?

Sequer existiria Anitta sem a sua performance corporal, e é por isso que ela ganha mais holofotes quando lança um clipe. Também a música sertaneja é um ritual, como são o baile funk, o show de rock pesado e todos os outros. Em primeiro lugar está a adesão a uma forma de comportamento social, e em segundo, se vier, está a apreciação das qualidades artísticas musicais. 

Então você escuta Bruno e Marrone porque está caindo de paixão e se identifica com aquilo. Você chora de sofrência no show sertanejo porque essa ocasião te permite ajustar seus sentimentos e a sua subjetividade nas relações sociais em que está envolvido. Não é por acaso que todo gênero da música de massa deve ser apreciado coletivamente. Não faz sentido ouvi-los sozinho, porque ouvir não é o mais importante.

Que o diga quem gosta de ligar o som do carro no volume máximo enquanto dirige.