Difícil distanciamento (Jardim das Aflições, Josias Teófilo, 2017)

 
 

Jardim das Aflições, o filme, é um panegírico. Não precisaria ser, porque Olavo de Carvalho é um personagem muito interessante. No entanto, o fascínio que ele exerce sobre o filme que o retrata é tão forte que não há nenhum distanciamento. Todos os planos são admirados. Eles também são planos cheios de reflexão - mas estas são feitas pelo próprio Olavo, e não pela forma do filme.

Exemplo disso é que até os trechos de filmes clássicos que intercalam os monólogos (Ford, Murnau, Eisenstein etc.) foram indicados pelo próprio Olavo de Carvalho. A montagem do filme nasce pela boca do personagem, e é na fala dele que ela se realiza. A voz do filme nunca se diferencia da sua voz. A adesão é completa.

Por mais de uma vez nas entrevistas, Olavo de Carvalho menciona o filósofo espanhol Ortega y Gasset. "Eu sou eu e minhas circunstâncias": a conhecida frase do livro Meditaciones del Quijote é citada indiretamente. Carvalho usa a ideia de Ortega para comentar a difícil relação entre os homens e o seu meio. Sabendo disso, é surpreendente que falte a Jardim das Aflições um mínimo de interesse pelas circunstâncias que tornaram Olavo de Carvalho um intelectual público tão sui generis, que consegue mobilizar as defesas mais apaixonadas e ao mesmo tempo reações de profundo desprezo.

Em vez de investir nessa linha de abordagem, a admiração incontida do diretor Josias Teófilo o leva pelo caminho da placidez e da serenidade, vinculando o seu personagem às circunstâncias menos dramáticas da vida: a rotina como morador da Virginia, o ambiente familiar, a organização da estante de livros, o gosto pela caça. Toda pequena fagulha de tensão é rapidamente apagada por alguma fala elucidativa do entrevistado, como na cena em que Carvalho, ao lado da mulher, comenta o seu talento para atrair um séquito de “loucos” - no sentido literal mesmo. Se essa fala expõe a complexidade do personagem, a cena em que ela aparece é uma das piores. Olavo e a esposa não estão à vontade, até um pouco constrangidos, e o assunto acaba de repente, como se não tivesse importância.

Então, embora o próprio discurso de Olavo de Carvalho deixe ver as suas outras facetas, vence o desejo de firmar a identidade de filósofo, com todos os cacoetes que se poderia imaginar: um homem superior, um mestre sapiente ao qual vão correndo os discípulos para encontrar algum consolo intelectual em meio ao caos de um mundo dominado pela esquerda. Homem culto, inteligente e ascético, que escolhe a dedo suas finas companhias, sempre pronto a discursar com propriedade sobre as desventuras da civilização, mas sem nenhum sinal de abalo ou fraqueza. 

Carvalho fala muito sobre comunistas, logo, fiquei me lembrando dos filmes que o CPC da UNE fazia no final dos anos 1950 para difundir suas ideias - o mais famosos deles foram reunidos na obra-coletânea Cinco Vezes Favela (1962). A militância em primeiro lugar, o cinema muito depois. Em que pese a ideologia ser outra, a conversão de um filme em panfleto também ocorre em Jardim das Aflições. Não é por acaso que as suas polêmicas estiveram ligadas à conquista dos espaços de exibição. Aqui, como na vertente da lacração identitária de outros filmes brasileiros, é o sentido militante da intervenção que prepondera. 

Os documentários devem evitar sempre essa adesão? Não penso que seja uma regra. Mas um personagem como Olavo de Carvalho ser abordado desse jeito, no único filme que fizeram sobre ele, é um grande desperdício.