Glauber e a lógica

 
 

Quando estava no doutorado e pesquisava a obra de Glauber Rocha, descobri que, em certo sentido, não deveria levar completamente a sério o que os artistas dizem.

Por causa disso, fiz uma ressalva na introdução da tese: embora se tratasse de uma pesquisa em filosofia, seria algo enganoso confundir Glauber com um filósofo. Um artista não precisa se comunicar pela via da lógica. Se um discurso contraditório é mortal para um filósofo, seria mortal, para artistas, exigir que não fossem contraditórios.

Sabendo disso, Glauber tinha grande habilidade para ser um cineasta que "interpreta o Brasil", sem que isso almejasse o mesmo significado de escrever um livro de sociologia. Essa estratégia salvou o Cinema Novo, impedindo que o movimento fosse arruinado, já no início, por sua enorme pretensão política. As obras e performances de Glauber ventilavam contradições no debate público, e a melhor parte dessas contradições eram tantos suas - de Glauber - como de nós mesmos, brasileiros.

Toda vez que estratégias exatamente opostas à de Glauber são usadas por artistas ou críticos, sinto que a nossa cultura realmente está ficando pior. Os candidatos a intérpretes do Brasil movidos pela racionalidade justiceira típica dos dias atuais - esta que tudo conhece, tudo quer corrigir e tudo quer punir - certamente deixarão obras que exemplificam as grandes questões do momento histórico. Mas estas obras não serão exemplos da melhor arte que já fomos capazes de fazer.

Em vez disso, elas exemplificarão que, na nossa época, a arte e o pensamento se misturaram de maneira tão equivocada que as obras interessadas em "interpretar o Brasil" passaram a ser vistas e julgadas como se fossem livros de sociologia, e os livros de sociologia passaram a ser vistos e julgados como se fossem obras de arte - o que, ao contrário do que dizem os artigos apressados que os acadêmicos de hoje publicam, faz muito mal para ambos.