Livros sobre análise fílmica publicados no Brasil

Como estudar filmes? Esta é uma das dúvidas mais comuns de quem se interessa por cinema na universidade.

Penso que se trata de uma pergunta da maior importância. Quem escreve um trabalho envolvendo cinema e não se inquieta sobre a natureza da sua pesquisa, dificilmente chegará a um resultado relevante.

Na universidade de hoje, os filmes estão razoavelmente presentes em diferentes tipos de pesquisa, sobretudo nas humanidades e artes. No entanto, grande parte destes trabalhos se refere a obras cinematográficas sem tomá-las como objetos de estudo.

Em geral, nestes casos, os filmes aparecem como ilustrações de conceitos teóricos ou fontes de “representações”. A atenção dos pesquisadores se volta mais para o conteúdo que para as formas discursivas do cinema. Pouco ou nada é investigado sobre a linguagem cinematográfica, o tipo de experiência estética ou as características específicas dos filmes.

 

Sergei Eisenstein: além de diretor fundamental da história do cinema, foi um dos teóricos precursores no desenvolvimento de métodos para a análise fílmica

 

A prática da análise

A concepção da análise fílmica como um método de estudo do cinema vai na direção contrária da tendência descrita acima. Daí o papel fundamental dessa metodologia em trabalhos acadêmicos interessados no cinema por ele mesmo, e não como um intermediário de outras disciplinas.

Clement Greenberg defendia, com razão, que a melhor maneira de aprimorar o gosto para a arte é acumular experiências com as obras e compará-las constantemente. Podemos dizer, de modo parecido, que nada é mais importante para a prática da análise fílmica que ler bons trabalhos em que ela é usada como método.

Essa regra se fortalece quando observamos que não existe um modelo universal de análise fílmica, mas sim uma variedade de formatos e estilos que dependem das características dos filmes analisados, bem como dos problemas de pesquisa que motivam os pesquisadores.

É possível desenvolver estudos exaustivos sobre um pequeno número de filmes, como fez Ismail Xavier no clássico Alegorias do Subdesenvolvimento. Mas também é possível discorrer sobre um número bem maior de obras, identificando um ponto comum de interesse em cada uma delas, como fez Luiz Carlos Oliveira Jr. no ótimo A Mise en Scène no Cinema. Há bons trabalhos de análise que se prendem a um só filme, e até mesmo a cenas ou sequências de uma única obra.

 

Sequência do filme Alexander Nevsky (1939) analisada por Sergei Eisenstein em O Sentido do Filme: o diagrama expõe a relação entre imagem, som, duração e movimento

 

Para começar a pesquisar

Embora eu pense que a leitura de outras análises é o melhor caminho para começar a fazê-las, existem obras introdutórias ao assunto publicadas no Brasil. Elas são úteis especialmente para quem está fazendo uma pesquisa na área pela primeira vez, e costumam ser bastante usadas nos cursos de comunicação e cinema.

O Ensaio sobre a Análise Fílmica, de Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété, deve ser o livro deste gênero mais conhecido na universidade brasileira. Publicada na França em 1992 e traduzida pela Papirus dois anos depois, trata-se de uma obra concisa que reflete preferências bastante particulares dos autores.

Os capítulos iniciais propõem uma passagem brevíssima por ideias elementares da história do cinema e da narratologia, deixando muito a desejar. Os exemplos de análises são interessantes para mostrar a necessidade de recortes e seleções durante o trabalho (esta é a parte do livro que eu costumo indicar para meus alunos). No entanto, por vezes, Vanoye e Goliot-Lété deixam o método “pesado” demais, como se os filmes acabassem sufocados pelas ferramentas da análise.

Jacques Aumont e Michel Marie (também autores do Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, da Papirus) escreveram juntos A Análise do Filme. O livro foi publicado em português pela editora Texto & Grafia, de Portugal, mas pode ser encontrado com facilidade no Brasil. Nele predomina a inclinação enciclopédica dos autores, que parecem ter como meta a elaboração de um compêndio com o maior número possível de modelos de análise fílmica.

O resultado é um livro extenso e fragmentado, que cai bem como referência para consultas. Todavia, o leitor não deve ansiar por aprofundamentos.

Michel Marie também é autor do ótimo Lendo as Imagens do Cinema, desta vez escrito com Laurent Jullier. A meu ver, é o melhor trabalho de autores franceses sobre análise fílmica publicado no país. Um dos motivos salta aos olhos quando a obra é folheada. O planejamento gráfico-visual é essencial para o conteúdo do livro, com fotogramas coloridos que ilustram e esclarecem pontos importantes das análises.

A primeira parte de Lendo as Imagens do Cinema, introdutória, não perde tempo com discussões fadadas a envelhecerem, e passa diretamente para a apresentação de noções básicas da linguagem cinematográfica. Nesse passo, três recortes analíticos são propostos: a análise do plano, da sequência ou do filme. Na segunda parte do livro, filmes representativos da história do cinema são analisados, em um horizonte que vai do “cinema mudo” à época “pós-moderna”. Ao contrário do que ocorre no manual de Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété, aqui não temos a impressão de que o método se sobrepõe aos filmes analisados.

Last, but not least, é preciso mencionar A Arte do Cinema, livraço de quase 800 páginas escrito a quatro mãos pelo casal de pesquisadores norte-americanos David Bordwell e Kristin Thompson. Para além do tema da análise fílmica, esta é possivelmente a obra mais completa de introdução geral ao estudo do cinema por ele mesmo. A primeira edição nos EUA é de 1979, mas o livro só veio a ser traduzido no Brasil por meio de um esforço conjunto das editoras da Unicamp e da USP em 2013. Dada a abrangência da obra, a parte sobre análise fílmica, que constitui o capítulo 5, é apenas um dos tópicos abordados pelos autores.

Bordwell e Thompson propõem uma aproximação entre a prática da análise e a crítica cinematográfica, apresentando exemplos de textos que mobilizam o conhecimento de outras seções de A Arte do Cinema. Tal concepção de uma “análise crítica” voltada para o estilo pode ser reconhecida em uma leitura complementar de Figuras Traçadas na Luz, livro em que Bordwell analisa quatro cineastas que representam formulações distintas da encenação em cinema. Pela clareza e objetividade de David Bordwell, ele é um autor que tenho indicado constantemente em minhas aulas para quem ingressa nos estudos de cinema.

Muito embora estas obras sejam de especial interesse para quem tem em vista a atuação profissional em cinema, o estudo da análise fílmica não é útil apenas para tais leitores. A familiaridade com os métodos de leitura sistemática das imagens e sons é uma competência que qualifica a todos que se ocupam com comunicação social, ainda mais quando observamos a tendência contemporânea a uma produção intensiva e pouco criteriosa de conteúdos audiovisuais (incluindo, é claro, aqueles que os meios digitais veiculam).

Sem deixar que os filmes fiquem indiferentes entre as questões-problemas de tantas disciplinas acadêmicas que se apropriam do cinema na atualidade, a análise fílmica desenvolve o gosto para as artes da imagem em movimento, favorecendo a formação de espectadores mais críticos e exigentes.