Arte, crítica e valores

Começando por três perguntas:

(A) O conteúdo proposicional de uma obra de arte é equiparável ao conteúdo proposicional de um texto crítico?

(B) A apreciação crítica de uma obra (entendida como a determinação de um juízo de gosto sobre ela) depende da avaliação do seu conteúdo proposicional?

(C) A natureza da avaliação crítica de uma obra (juízo de gosto) pode ser equiparada à natureza da avaliação do seu conteúdo proposicional?

Podemos investigar a validade das seguintes respostas:

(A) O conteúdo proposicional de uma obra não pode ser equiparado ao conteúdo proposicional de um texto crítico, uma vez que eles se diferenciam consideravelmente em aspectos como a referencialidade e a conotação.

A meu ver, obras representacionais são as únicas que permitem a apreensão de um conteúdo proposicional suficientemente determinado, a ponto de, por vezes, a sua aquisição ser indispensável para que a obra seja recebida de maneira adequada. Por exemplo: a recepção do filme Que horas ela volta? não poderia abrir mão de apreender o conteúdo da proposição "a relação entre os empregadores e as domésticas no Brasil exemplifica a desigualdade do país", pois, se o fizesse, correria o risco de não compreender o filme.

Em que pese exemplos como esse, mesmo as obras representacionais não são tão dependentes de conteúdos proposicionais suficientemente determinados como o são os textos críticos, e há uma série de outros exemplos em que este conteúdo é passível de interpretações diversas, eliminando a obrigatoriedade de uma apreensão específica para a devida compreensão da obra.

Em Terra em Transe não é possível dizer, por exemplo, que Alecrim e Eldorado são espaços alegóricos que se referem ao Brasil, uma vez que eles poderiam igualmente se referir a outros países latino-americanos com características políticas e históricas semelhantes (não há elementos que tornam falsa a afirmação de que a alegoria se refere ao Brasil, mas tampouco há elementos que permitam dizer, com segurança, que o Brasil é o referente específico dessa representação).

Pelas características dos filmes citados, a determinação segura do conteúdo proposicional do filme de Glauber não é tão importante como no filme da Muylaert, o que serve para exemplificar as diferenças e particularidades dos conteúdos proposicionais nas obras artísticas.

No que diz respeito ao textos críticos, penso que eles sempre dependem de conteúdos proposicionais bem definidos, na medida que emitem juízos para aferir o valor das obras.

Quando Eduardo Escorel critica O Som ao Redor, ele nos oferece conteúdos proposicionais explícitos, como, por exemplo, a afirmação de que a direção dos atores não produziu um resultado esteticamente bom. Pode-se discordar de Escorel por motivos estéticos (logo, por razões ligadas à experiência com a obra), mas isso não vem ao caso para responder a questão que estamos discutindo, senão no sentido de que a ocorrência de dissenso em relação ao que diz o Escorel aponta para a importância da clareza nos conteúdos proposicionais dos textos críticos, ao passo que nas obras artísticas essa clareza é apenas algo contingente, como já vimos.

 

O filme O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, é exemplo frequente em discussões sobre a diferença entre o valor moral e o valor artístico na arte

 

(B) A partir da resposta ao ponto "A", eu diria que existem obras cuja apreciação crítica depende da apreensão de seus conteúdos proposicionais, mas isso não significa que essa apreensão deva ser avaliativa. Em outras palavras, é possível julgar o mérito artístico independentemente do mérito do conteúdo proposicional de uma obra. Exemplos clássicos são O Nascimento de uma Nação, de Griffith, ou Triunfo da Vontade, da Riefenstahl.

Nós podemos discutir se essas obras são boas como cinema, a despeito de seus conteúdos proposicionais serem moralmente condenáveis (uma por causa do elogio ao racismo, a outra por causa da celebração do nazismo). Que eu conclua a favor da boa qualidade do filme de Griffith não me torna um racista, justamente porque eu não preciso emitir um parecer favorável ao conteúdo proposicional da obra ao julgar o seu mérito estético.

(C) Dito isso, parece possível concluir que a natureza da avaliação crítica de uma obra é suficientemente diferente da natureza da avaliação do seu conteúdo proposicional, a ponto de que estes sejam processos distintos, mesmo que a apreensão (mas não a avaliação do mérito) do conteúdo proposicional seja algo necessário na compreensão de determinadas obras (especificamente as obras representacionais).