Aquarius e a regressão do cinema político

Em entrevista à Folha de São Paulo, Kleber Mendonça Filho endossou uma comparação de Clara, personagem do seu filme “Aquarius”, com a ex-presidente Dilma Rousseff: "São duas mulheres que estão sendo despejadas e precisam lidar com homens corruptos para tentar manter a casa onde vivem".

Confesso que fiquei intrigado com a franqueza do diretor em relação aos sentidos do seu próprio filme. Não sei o que os leitores pensam a respeito, mas acho difícil levar a sério artistas que se sentem confortáveis diante de interpretações fáceis e politicamente oportunas das obras que eles mesmos criam.

A interpretação chancelada por Kleber Mendonça acaba dando alguma razão aos críticos que questionam a fragilidade dramática de “Aquarius”, pois destaca a caracterização de Clara como uma mulher vitimada e resistente (logo, virtuosa), dispensando qualquer nuance crítica que o filme tenha proposto sobre ela. Curiosamente, a maioria da crítica favorável ao filme insiste em argumentar na direção contrária, destacando as contradições que cercam Clara e diminuindo o peso da virtude na construção da personagem.

Esse desacordo entre o diretor e os críticos que elogiam o seu filme não poderia passar batido. Para nos ajudar a resolvê-lo, a fala de Kleber Mendonça poderia ter sido seguida de outra pergunta: Se Clara é mesmo comparável a Dilma, e se a crítica que elogia “Aquarius” está correta ao diminuir o peso da virtude na personagem, como poderiam ter razão os que veem em Dilma uma mulher essencialmente virtuosa e vitimada por um golpe político? Não haveria aí uma contradição?

A alternativa a essa pergunta seria simplesmente não fazê-la, e cogitar que a crítica que elogia “Aquarius” pode não estar certa sobre a capacidade do filme de nuançar o seu próprio discurso político. Alertados pela autoridade irrecusável do diretor da obra, nós realmente não deveríamos deixar de ver Clara – e Dilma – como mulheres essencialmente virtuosas e agredidas pelos fatos.  

Melodrama latente

Na verdade, a comparação de Clara com Dilma, aprovada por Kleber Mendonça, conecta-se a uma dimensão melodramática que permanece latente em todo o filme, e que tem na doença de Clara o seu elemento mais explícito.  

Assim, a entrada do espectador nas polarizações da trama de “Aquarius” ofereceria a chave mais adequada para a obra, e talvez Eduardo Escorel estivesse enganado ao nomear os seus excessos de barrocos. Não seria, como nas narrativas barrocas, um acúmulo de camadas que complexificam o filme, desestabilizando a representação. O excesso resultaria, na verdade, do acúmulo de classificações que separam a virtude e a vilania. Digamos que, para entender “Aquarius”, seria preciso identificar e separar claramente os honestos e os corruptos, as mulheres (honestas) e os homens (corruptos), aqueles que resistem (mulheres honestas) e os capitalistas desumanos e sem escrúpulos (homens corruptos) etc.

Embora eu não veja “Aquarius” como um filme tão nuançado e sutil como os críticos favoráveis o veem, tampouco diria que a revelação deste melodrama latente é a melhor forma de ancorar uma crítica justa ao filme. Há algo mais fundamental, que impõe limites a “Aquarius” como uma obra política, e que não está propriamente no seu enlace com o melodrama: a sua relação com o passado do cinema brasileiro.  

 

O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl (1969)

 

Identificação sem complexidade

Para discutir essa relação, podemos até admitir que "Aquarius" expõe as contradições da classe média brasileira. Mas isso não ocorre apenas pelo que o filme é, e sim pelo que ele não é, e sobretudo pelo discurso dos que o defendem por motivos políticos.

Voltemos um pouco no tempo. Quando o Cinema Novo começava a produzir os seus filmes urbanos, Gustavo Dahl dizia que a classe média finalmente seria representada na tela, e que essa representação resultaria em filmes "difíceis de engolir". De fato, não foi fácil para a esquerda cultural se reconhecer nos personagens que Glauber Rocha, Paulo César Saraceni, Nelson Pereira dos Santos ou o próprio Gustavo Dahl criaram entre 1965 e 1969. A capacidade destes filmes de fazerem uma autocrítica da esquerda brasileira, logo depois de ela sofrer um golpe, é algo muito diferente de qualquer coisa que vemos hoje nas telas de cinema.  

Todos os protagonistas daquelas obras dos anos 1960 são ambíguos e internamente divididos, oscilando entre a ilusão de possuírem uma boa consciência e a decepção pelo fato de não serem, no fundo, tão bons quanto gostariam de ser. O exemplo mais vigoroso destes personagens é Paulo Martins, protagonista de Terra em Transe, filme que Glauber lançou em 1967. Jornalista e militante político, poeta e bon vivant, Paulo é a personificação das contradições de uma classe média de esquerda. Para quem pertence a esse grupo social, assistir ao filme de Glauber – até hoje – é necessariamente incomodar-se com um espelho impiedoso e pontiagudo. Um espelho efetivamente barroco.

Comparado àqueles filmes, "Aquarius" evita a todo custo que alguém se desconforte com Clara. Ao contrário, o filme promove uma identificação plena com a personagem, aproximando-a "afetivamente" por meio de uma narrativa plácida e cheia de indulgências. Em seu texto na revista Cinética, Andrea Ormond afirma que Clara “não é muito diferente” de seu antagonista (o jovem empreendedor que quer comprar o seu prédio), e que ninguém “tem razão” em “Aquarius”. Essas afirmações falsificam a estrutura narrativa do filme, omitindo a sua óbvia preferência pela protagonista.

Jean-Claude Bernardet também repercute equívocos ao dizer que Clara é uma personagem de muitas facetas. O crítico que tão bem avaliou a evolução do Cinema Novo no clássico Brasil em Tempo de Cinema parece diminuir a exigência diante de “Aquarius”. Naquele livro, Bernardet celebra a consciência de Antônio das Mortes (personagem de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha) como a própria consciência incômoda da classe média, forçando-nos a questionar “a validade de nossa atuação” (p. 82 da edição de 1978). No filme de Kleber Mendonça Filho, porém, as contradições que tornariam Clara complexa e ambígua nunca penetram na consciência da personagem. E se as contradições não são internalizadas, Clara não pode problematizar a si mesma. Identificado com a personagem, o espectador de “Aquarius” nunca é confrontado com a necessidade de avaliar a sua própria consciência.

Por isso, nada é mais distante de Clara que o ritual autodestrutivo de Paulo Martins, lá pela metade de Terra em Transe; ou o gesto suicida do político que Paulo César Pereio viveu em O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl; ou o fastio rebelde de Ada com sua vida burguesa, em O Desafio, de Saraceni. Clara é virtuosa e por isso não pode vacilar, ceder, nem duvidar de si mesmo. Essas características fazem com que o conflito nuclear de “Aquarius” não consiga abrir mão daquele melodrama latente que comentei há pouco.

Nesse passo, a velha frase de Gustavo Dahl sobre a representação da classe média perdeu o sentido. Para o espectador ideal de “Aquarius”, que é de classe média e simpático à esquerda, é muito fácil engolir Clara. O espelho da identificação resplandece, apesar das inserções pontuais de elementos que colocam a personagem em uma posição de privilégio (sua relação com a doméstica, sua proteção especial pelo salva-vidas, seus contatos no meio jornalístico etc.). O espectador ideal do filme se associa a Clara e torce por ela, assim como se associa às boas vítimas de uma telenovela. Sai pra lá, capitalismo mau. Juntos, poderemos resistir.

 

Terra em Transe, de Glauber Rocha (1967)

 

Difícil autocrítica

Como não lamentar a regressão que significa "Aquarius" no que diz respeito à capacidade do cinema brasileiro de expressar a realidade política? No entanto, é assim mesmo que a polêmica ligada ao filme deixa ver as contradições da classe média de esquerda, atualizada para os nossos dias.

Ao dizer que Clara pode ser comparada a Dilma, Kleber Mendonça escancara o traço mais distintivo dos que chamam o impeachment de golpe e militam pelo PT: a dificuldade de fazer uma autocrítica. Essa contradição é flagrante toda vez que alguém se esforça para valorizar as nuances e sutilezas que cercam a protagonista de “Aquarius”, mas ao mesmo tempo se satisfaz com o deslumbre narcísico e autocomplacente estimulado pela identificação com a personagem. 

Não quero parecer conclusivo nesse breve retorno aos anos 1960. Porém, chama a atenção que o Cinema Novo tenha conseguido fazer uma autocrítica da esquerda, no preciso momento em que os artistas eram intimidados pela ditadura militar. Dahl, Rocha ou Saraceni poderiam ter criado personagens aptos a endossar um discurso de vitimização, sublinhando as virtudes do seu próprio grupo político. Mas não é isso que encontramos na força duradoura deste cinema político e reflexivo. Encontramos filmes bem melhores. 

Já o cinema de esquerda atual – com o incensado filme de Kleber Mendonça à frente – não assume pra valer as suas próprias contradições, justamente quando isso poderia ocasionar uma reflexão digna e libertadora, colocando em perspectiva a soberba de um grupo político que conduziu o país para a crise, e ocasionou que o impeachment de Dilma Rousseff fosse apenas o clímax recente de uma narrativa ainda em construção. Não existe autocrítica nos discursos militantes dos cineastas de esquerda no Brasil atual, e menos ainda na forma dos seus filmes. 

 

* Artigo publicado no Estadão em 23 de setembro de 2016