A implicação do espectador em Black Mirror

A série de TV Black Mirror, exibida originalmente em 2011 pela emissora de TV britânica Channel 4, tem como uma de suas características centrais a abordagem das transformações das relações sociais pelas novas tecnologias. As formas atuais de circulação das informações e os hábitos dos usuários de aparelhos de comunicação são tematizados em todos os episódios da série, que, recuando em relação à tendência majoritária da produção de narrativas seriadas no presente, não se desenvolvem por meio da conciliação de arcos curtos e longos.

Na contramão das narrativas complexas que Jason Mittell (2012) estuda em seu trabalho sobre a televisão contemporânea, Black Mirror resgata o formato de antologia que vigorou especialmente na TV norte-americana dos anos 1950. Desse modo, cada episódio conta com uma trama fechada em si mesma, apresentando uma nova diegese, novos personagens e novas referências aos gêneros clássicos das narrativas audiovisuais, seja o filme de perseguição ou a ficção científica, duas matrizes bastante exploradas pela obra. Embora não haja continuidade da ação entre um e outro episódio, a série garante a sua unidade ao conservar os temas e a natureza dos problemas que fundamentam cada uma de suas tramas isoladas.

O objetivo desta comunicação é expor a respeito de aspectos formais de National Anthem, o primeiro episódio de Black Mirror. Para tanto, recorreremos aos trabalhos sobre estilo cinematográfico do pesquisador norte-americano David Bordwell (2013, 2008), cuja orientação cognitivista tem contribuído, desde os anos 1980, para a reconfiguração da narratologia nos estudos cinematográficos. Em especial, dialogaremos com as obras Sobre a História do Estilo Cinematográfico e Figuras Traçadas na Luz, publicadas recentemente no Brasil. Em Sobre a História do Estilo Cinematográfico, Bordwell sistematiza a sua proposta de uma historiografia do cinema, focalizando o conceito de estilo como âncora de uma releitura do pensamento cinematográfico. Em Figuras Traçadas na Luz, por sua vez, encontramos a aplicação do método de análise da mise en scène que aquela obra havia elaborado, de modo a fundamentar a análise fílmica praticada academicamente na atualidade.

A apropriação da teoria de Bordwell para a análise estilística de produtos televisivos não é uma novidade. No nosso caso, temos trabalhado com essa metodologia em projeto de pesquisa na Universidade Estadual de Goiás, e este trabalho é um produto diretamente relacionado a ele.

 
 

Uma sátira das relações comunicacionais contemporâneas

Do ponto de vista da fábula, National Anthem trata do sequestro performático da princesa Susannah, uma herdeira da monarquia inglesa muito popular por utilizar as redes sociais como meio de comunicação com a população britânica. A trama se passa em uma Inglaterra concebida ficcionalmente a partir do exagero de características comuns às sociedades contemporâneas, estruturando-se como uma trama política em que a ação é definida cronologicamente segundo o padrão deste gênero nas narrativas clássicas do cinema, ou seja, servindo-se vastamente do recurso de enunciação de deadlines que motivam a construção de hipóteses pelos espectadores.

A representação exagerada das relações mediadas pelas telas digitais dos aparelhos de comunicação (personal computers, monitores, televisões, smartphones etc.) tem uma função satírica em National Anthem, sendo a sátira um elemento frequente em diversos episódios de Black Mirror. No episódio que estamos analisando, em particular, a satirização dos hábitos de comunicação da sociedade atual tem seu ponto de culminância na elaboração do problema principal da trama. Trata-se da exigência, pelos sequestradores da princesa Susannah, de que Michael Callow, o primeiro ministro, apareça na TV fazendo sexo com um porco, em uma transmissão ao vivo que deve ser veiculada por todas as emissoras do país. O estabelecimento de uma deadline para o ato escatológico do primeiro ministro é a base para o desenvolvimento dos segmentos narrativos em que a tensão sobre o sequestro da princesa é construída, e a opinião pública sobre o teor do resgate e a imagem de Callow vão se transformando em relação instantânea com os acontecimentos.

A revelação da autoria do sequestro só é realizada no epílogo, confirmando que a resolução do problema central opera como um chamariz para o espectador. A dimensão mais importante da fruição narrativa, para a qual a representação sempre converge em National Anthem, diz respeito à própria manifestação do ponto de vista da série sobre o mundo contemporâneo, de modo que os espectadores são diretamente implicados na sátira. Nesse sentido, National Anthem (e Black Mirror como um todo) é uma série acetuadamente autorreflexiva. Ela parte do fato de que os seus espectadores estão necessariamente diante de uma tela para incluí-los como personagens implícitos das relações sociais que a narrativa tematiza e satiriza.

Parte importante da determinação estilística de National Anthem está relacionada a essa implicação do espectador na narrativa, atribuindo grande valor à presença das telas na mise en scène. Mesmo que o espectador nunca entre efetivamente na diegese, a encenação sugere a sua inclusão por meio de estratégias que criam associações diretas entre o olhar dos espectadores no ato de apreciação da obra e o olhar dos personagens em determinados momentos da narrativa.

A encenação ficcional televisiva: intensidade e classicismo

Em Figuras Traçadas na Luz, Bordwell diferencia duas formas de abordagem na encenação ficcional clássica: levanta-e-fala e senta-e-fala. Estas duas orientações para a direção dos atores no espaço do quadro se definiram a partir da essencialidade da conversa na cena padrão do cinema hollywoodiano de estúdios dos anos 1930 aos anos 1940, difundindo-se em toda a produção audiovisual de ficção até os dias de hoje. “Não importam as variações ou alternativas que possamos encontrar, esses esquemas são quase uma segunda natureza para os cineastas” (Bordwell, 2008, p. 45).

Entre o cinema clássico e o contemporâneo, todavia, ocorre uma natural evolução estilística da mise en scène. Esta evolução é determinada, entre vários motivos, por inovações tecnológicas no campo do audiovisual, sendo que o aparecimento e popularização da televisão nos anos 1950 pode ser indicado como um dos fatores que mais contribuíram para uma redefinição do estilo clássico nas últimas décadas do século XX. “No cinema contemporâneo”, escreve Bordwell (2008, p. 46), “a estratégia do levanta-e-fala domina”. Este novo estilo, que Bordwell estuda em diferentes momentos de seus livros, ganhou ampla difusão na produção dos anos 1990, podendo ser definido adequadamente como um sistema de continuidade intensificada.

National Anthem é um exemplo comum de continuidade intensificada na produção televisiva contemporânea, exibindo as características fundamentais que definem este estilo. A duração dos planos é invariavelmente breve, diferenciando a obra dos padrões de duração dos filmes clássicos. Os planos fechados estão presentes em maior número que os planos de conjunto, e mesmo os planos médios tendem a abranger com restrição os cenários e atores, de modo que a representação do espaço raramente permite que o espectador tome distância dos personagens individuais ou grupais – as tomadas abertas da cidade, sem personagens identificáveis, são exceções incluídas em momentos muito específicos, seja para obedecer ao padrão de decupagem que utiliza planos gerais com o intuito de localizar a ação, seja para significar o esvaziamento das ruas, como vemos mais ao final do episódio.

No que toca particularmente à direção dos atores, todavia, predomina em National Anthem um padrão de mise en scène que merece ser destacado no todo da produção contemporânea sob influência da intensificação da continuidade. O objetivo de implicar o espectador na narrativa faz com que a abordagem do levanta-e-fala se deixe afetar pela presença ostensiva, em cena, das telas e aparelhos de comunicação. Ainda mais raras que as tomadas gerais são as ocasiões em que a imagem não mostra telas ou personagens que se comunicam por meio delas. Por um lado, a ideia de propagabilidade pode ser vislumbrada, aqui, como um conceito-chave para compreender a discussão que a obra propõe sobre a cultura contemporânea, remetendo-nos a autores como Henry Jenkins, Joshua Green e Sam Ford (2014). Por outro lado, a presença ostensiva das telas é um princípio organizador da encenação, que as incorpora estilisticamente com a finalidade de corroborar a significação dramática da narrativa. A efetiva implicação do espectador em National Anthem depende do sucesso na execução deste princípio.

 
Figura 1

Figura 1

 
 
Figura 2

Figura 2

 

Como podemos ver nas Figuras 1 e 2, o direcionamento do olhar dos personagens intervém no posicionamento dos atores no quadro, tanto em planos médios, mais fechados (Fig. 1), como em planos de conjunto em que eles são dispostos de maneira orquestrada em torno das telas (Fig. 2). Esse padrão de posicionamento adequa-se muito bem à continuidade intensificada, uma vez que o deslocamento da ação para as telas acaba diminuindo a mobilidade dos atores na cena, o que beneficia o emprego de planos mais fechados e breves. Na medida que todos os olhares se direcionam para as imagem exibidas nos aparelhos, o estilo de National Anthem precisa resolver problemas de composição para lidar com a fixidez dos atores. Em ocasiões como no plano da Figura 3, abaixo, essa demanda dá origem a enquadramentos planimétricos (Wölfflin, 2000) típicos da modernidade cinematográfica, que achatam o plano de fundo para torná-lo perpendicular ao eixo da câmera, apreendendo as silhuetas dos personagens de maneira frontal:

 
Figura 3

Figura 3

 

Outra alternativa de incorporação estilística das telas em National Anthem pode ser observada na construção dos cenários em que predominam adereços geométricos de aspecto moderno. Com efeito, Black Mirror tem episódios que se destacam pela grande qualidade da direção de arte, revelando-a como uma atração à parte. Vale observar, por exemplo, os resultados conseguidos em Fifteen Million Merits, segundo episódio da primeira temporada da série, em que as telas deixam de ser meros objetos cênicos, para as quais os personagens olham, e passam a ser as paredes dos pequenos dormitórios que os envolvem de todos os lados (elas, as telas, é que parecem olhar para os personagens). Em National Anthem, as tonalidades frias em cinza e azul se somam ao trabalho cenográfico, e mesmo que a Inglaterra fictícia apresentada no episódio não seja futurista, os cenários têm características associáveis ao design tecnológico que a diegese reivindica. Na Figura 4, podemos observar um plano de conjunto em que estão aplicados os elementos da cenografia que comentamos acima, com a parede espelhada que reflete e multiplica os monitores de TV da sala de reunião dos jornalistas, e também os refletores de luz, em formato quadrangular, que intensificam o efeito visual da cena em congruência com a concepção artística.

 
Figura 4

Figura 4

 

De todo modo, nenhuma forma de apropriação das telas digitais atende melhor ao objetivo de implicar o espectador em National Anthem que a utilização dos monitores de TV como ligações entre diferentes espaços por meio de raccords de continuidade. Nas Figuras 5, 6 e 7 podemos observar três momentos diferentes de um mesmo segmento montado de acordo com essa estratégia de aproximação espacial. O corte estabelece a elipse entre o corredor de um hospital (Figura 5) e o balcão de um bar (Figura 6) onde os personagens estão igualmente envolvidos com a transmissão das últimas notícias sobre o sequestro da princesa Susannah. A Figura 7, por sua vez, lança mão do recurso da tela dentro da tela, amalgamando o monitor de TV que vincula os personagens destes distintos espaços ao monitor que exibe Black Mirror para seus espectadores. A inclusão do espectador da série junto aos figurantes que acompanham o dilema do primeiro ministro inglês é evidenciada na Figura 7, sobretudo se comparamos o posicionamento dos personagens nas Figuras 5 e 6 ao posicionamento suposto do público da série.

 
Figura 5

Figura 5

Figura 6

Figura 6

Figura 7

Figura 7

 

A elipse espacial que utiliza monitores de TV e o recurso da tela dentro da tela não são, a rigor, procedimentos originais do estilo de National Anthem, mas adquirem um peso maior nesta obra do que geralmente possuem quando são empregados eminentemente por seu valor funcional. É possível afirmar que, diante da impossibilidade lógica de filmar os seus espectadores, National Anthem opta por implicá-los entre os raccords que aproximam os personagens e os representa como iguais, no sentido de que todos estão exercendo o papel de espectadores de um mesmo espetáculo televisivo. Na sequência de figuras abaixo (Fig. 8 a Fig. 12), extraída de um momento posterior da narrativa, National Anthem toma partido em relação ao seu tema. A trilha sonora melodiosa atribui uma inesperada carga de dramaticidade à representação dos personagens que fitam os monitores de TV, e a variedade dos seus semblantes levam a narrativa a um clímax no qual o sentido da sátira se impõe com contundência, dispensando o humor negro e assumindo uma maior gravidade.

Considerações finais

Embora a continuidade intensificada seja um desdobramento do classicismo cinematográfico a partir da transformação da tecnologia de base da produção audiovisual, a ocorrência deste estilo em National Anthem não impede a obra de realizar operações em que a forma narrativa acaba revelando traços notadamente modernos. Por meio da implicação do espectador, a reflexividade do episódio potencializa o seu caráter satírico e reforça a sua capacidade de abordar as tecnologias de comunicação e seus efeitos sobre o comportamento dos usuários.

Nesse sentido, parece válida a interpretação de que o discurso audiovisual de Black Mirror é tributário de uma orquestração de princípios clássicos e modernos que operam tendo em vista o máximo de inserção da série no debate sobre questões contemporâneas de comunicação e cultura, o que significa, em certo sentido, a adoção de um estilo coerente com o meio televisivo em que a produção é veiculada. Se o padrão de encenação levanta-e-fala é prioritário na mise en scène da ficção narrativa de continuidade intensificada, como quer Bordwell, National Anthem o assimila a seu próprio modo, atenuando a mobilidade dos atores a fim de aproveitar com eficiência a presença da telas em cena. A possibilidade de observar mais detidamente essa assimilação demonstra a importância da análise fílmica para a compreensão da vasta produção audiovisual do presente, sobretudo no campo da estilística, com o qual pretendemos dialogar, aqui, a partir da referência às obras de David Bordwell.

 

* Texto apresentado no IV SIIMI do Media Lab UFG em 2016

 

Referências bibliográficas

BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz: a encenação no cinema. Tradução de Maria Machado Jatobá. Campinas (SP): Papirus, 2008. (Coleção Campo Imagético.)

______. Sobre a História do Estilo Cinematográfico. Tradução de Luís Carlos Borges. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

JENKINS, Henry; FORD, Sam; GREEN, Joshua. Cultura da Conexão. Tradução de Patricia Arnaud. São Paulo: Aleph, 2014.

MITTELL, Jason. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea. In: Matrizes, ano 5, n. 2, jan./jun. 2012, São Paulo, p. 29-52.

WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos fundamentais da história da arte: o problema da evolução dos estilos na arte mais recente. São Paulo: Martins Fontes, 2000.